segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Quem não tem asas

 Quem não tem asas 
Costuma chamar o céu de exagero. 
Aponta as nuvens como armadilhas, 
O vento como inimigo, 
E transforma o próprio medo em conselho. 
 
Diz que voar é perigoso 
Porque nunca sentiu o chão desaparecer. 
Porque nunca confiou no vazio. 
Porque confunde prudência com prisão. 
 
Quem anda sempre rente ao chão 
Aprendeu a medir a vida em passos curtos 
E estranha quem ousa saltar. 
Não por maldade, 
Mas porque o voo 
Revela aquilo que lhes falta. 
 
Eles vão te oferecer gaiolas bem pintadas, 
Nomes bonitos para a desistência, 
Elogios à segurança do nunca. 
Vão chamar de maturidade o cansaço, 
De realidade o medo herdado. 
 
Mas quem nasce com asas 
Sente dor se não tenta voar. 
O perigo maior não está em cair, 
E sim em passar a vida inteira acreditando 
Que o céu era só um mito inventado 
Por quem se recusou a rastejar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Inteiro no mesmo desejo

Meus pensamentos caminham intactos: 
O desejo não mudou de endereço, 
A afeição não perdeu o nome. 
Eles continuam onde sempre estiveram, 
Em vigília silenciosa dentro de mim. 
 
Há algo em você que não pede licença. 
Entra devagar, como quem prende o corpo pelo eco, 
E quando percebo, já não é só presença: 
É feitiço. 
 
Você tocou não apenas a pele, 
Mas o lugar onde a pele começa a sentir falta. 
Encantou o corpo, sim, 
Mas foi a alma que primeiro se rendeu, 
Como se já o conhecesse de antes. 
 
Sigo dessa forma: 
Inteiro no mesmo desejo, 
Fiel à mesma afeição, 
Sabendo que algumas mudanças não são rupturas, 
São aprofundamentos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 25 de janeiro de 2026

Segredos da consciência

 Havia segredos em mim 
Que não se escondiam por medo, 
Mas por delicadeza. 
Esperavam o instante exato 
Em que a consciência, cansada de correr, 
Pararia para ouvi-los. 
 
Eles não chegaram como revelações grandiosas, 
Vieram como um arrepio breve, 
Um pensamento que não pedi, 
Uma lembrança sem endereço. 
De repente, eu sabia, 
E não havia como fingir que não. 
 
Descobri que alguns segredos não são fatos, 
São estados de espírito. 
Eles não dizem o que aconteceu, 
Mas quem eu sou quando ninguém está olhando. 
 
A súbita consciência não grita. 
Ela sussurra, 
E o susto vem justamente disso: 
Do reconhecimento silencioso. 
É quando a mente percebe 
Que sempre soube, 
Mas ainda não tinha coragem de nomear. 
 
Há segredos que não querem ser resolvidos, 
Apenas aceitos. 
Eles surgem para redesenhar o mapa interno, 
Mudar a rota das escolhas, 
Deslocar o centro do que chamávamos de certeza. 
 
E então sigo, 
Um pouco diferente, 
Carregando agora o peso leve 
De saber algo que não me destrói, 
Mas também não me deixa voltar 
A ser quem eu era antes de perceber. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 24 de janeiro de 2026

O encanto dela

 O encanto dela não vinha de artifícios, 
Vinha dela mesma, 
Como quem existe 
Sem pedir licença ao mundo. 
 
Era a curva discreta dos ombros, 
Um desenho quase invisível, 
Mas capaz de sustentar silêncios inteiros. 
Não havia pose ali, apenas verdade, 
E a verdade, quando se mostra, 
Seduz sem esforço. 
 
Seu olhar nunca repousava por completo. 
Havia nele uma inquietude bonita, 
Como se estivesse sempre prestes a partir 
Ou a descobrir algo que ninguém mais via. 
Olhos assim não observam: revelam. 
 
E o sorriso… 
Ah, o sorriso não se entregava inteiro. 
Guardava um segredo, 
Não por malícia, mas por delicadeza. 
Como quem sabe que certas coisas 
Só florescem quando permanecem escondidas. 
 
O encanto dela era isso: 
Não tentar ser inesquecível, 
E ainda assim permanecer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O sorriso do gato invisível

 Há dias em que o céu não se abre em azul, 
Mas em ironia. 
Um arco invisível se desenha no alto, 
Não de luz, 
Mas de intenção. 
 
É o sorriso de um gato que não está, 
Mas observa. 
Não mia, não salta, não cai: 
Paira. 
Um riso suspenso, debochado, 
Como quem sabe algo 
E se recusa a explicar. 
 
O céu, então, deixa de ser abrigo 
E vira provocação. 
Parece dizer que a ordem é uma invenção humana, 
Que o acaso tem humor 
E que o absurdo sabe rir. 
 
Esse sorriso pintado no nada 
Zomba das nossas urgências, 
Das previsões do tempo, 
Das promessas de amanhã. 
Ele permanece, curvo e calmo, 
Enquanto tudo embaixo insiste em desmoronar. 
 
Talvez o céu seja isso: 
Uma tela onde o invisível ensaia gestos, 
E o gato — esse mestre do desprezo elegante, 
Nos lembra, sem palavras, 
Que nem tudo precisa fazer sentido 
Para continuar existindo. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

E talvez seja isso

 Que poema de amor 
Agora me enche o coração? 
Não é feito de rimas perfeitas, 
Nem cabe inteiro no papel. 
 
É um poema que pulsa, 
Nasce quando teu nome 
Atravessa meus pensamentos 
Sem pedir licença, 
Quando o silêncio fica mais cheio 
Do que qualquer palavra dita. 
 
É um poema de espera e vertigem, 
Feito de olhares que não se confessam, 
De vontades que aprendem a respirar devagar 
Para não se denunciarem. 
 
Agora o amor me ocupa assim: 
Como um verso que insiste, 
Uma estrofe inacabada 
Que não quer fim, 
Apenas presença. 
 
E talvez seja isso 
O que me enche o coração: 
Não o poema escrito, 
Mas aquele que acontece 
Quando penso em você 
E tudo dentro de mim 
Se reorganiza em poesia. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Porque não fugi do silêncio

A solidão me ensinou a ouvir 
O som que o mundo esqueceu de fazer. 
Entre paredes mudas, 
Minha imaginação aprendeu a andar descalça, 
Sem mapa, sem hora, sem dono. 
 
Quando ninguém me vê, 
As palavras perdem o medo 
E se sentam ao meu lado 
Como animais que reconhecem abrigo. 
Não pedem sentido, 
Pedem espaço. 
 
Invento paisagens que não existem 
Para sobreviver às que existem demais. 
Crio rostos, vozes, destinos, 
Porque a realidade, sozinha, 
Não basta. 
 
Sou poeta porque fiquei. 
Porque não fugi do silêncio. 
Porque aceitei que a solidão 
Não era ausência de mundo, 
Mas o lugar exato 
Onde a imaginação respira livre 
E me escreve antes que eu a escreva. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Impossível descrever

É impossível te descrever em um poema. 
Quem me vê tentando, acha exagero, 
Mas eu sei: 
A tua beleza não cabe no tamanho das palavras. 
Quando te olho, o mundo parece ganhar nitidez, 
E o verso, coitado, fica pequeno, 
Como se precisasse pedir licença para existir. 
 
Eu sempre penso que, 
Se um dia eu conseguir te traduzir, 
Vai ser no silêncio: 
Porque é nos silêncios que tua presença cresce, 
Que a voz fraqueja, 
Que o peito se abre. 
 
Te escrevo sabendo da derrota, 
Mas feliz por ela, 
Porque te admirar já é triunfo. 
 
Não há medida para o que sinto quando te vejo, 
Não há escala natural que te comporte. 
E no fundo, acho que é melhor assim: 
Você é maior 
Do que qualquer poema que eu possa fazer, 
E ainda assim eu continuo tentando, 
Porque é o único jeito que encontrei 
De ficar perto de ti. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A arte de escrever

 Escrever é sondar o abismo sem cair, 
É perguntar ao tempo se o efêmero pode durar. 
O escritor traça linhas não para explicar o mundo, 
Mas para lembrar 
Que ele não cabe inteiro em explicação alguma. 
 
Cada palavra é uma hipótese de existência, 
Um gesto contra a entropia das coisas. 
E mesmo assim, a página é um deserto 
Onde nenhum passo é certo até ser dado. 
 
A escrita não busca certezas, 
Ela fabrica perguntas mais nítidas. 
É um modo de pensar sem obedecer, 
De sentir sem pedir licença, 
De existir sem garantia. 
 
Na literatura, o real não vence o imaginário: 
Convive com ele, 
Como dois estranhos que dividem o mesmo silêncio. 
E do atrito entre ambos 
Surge o brilho raro das metáforas. 
 
Porque escrever é admitir 
Que o mundo é insuficiente, 
E que só nos resta ampliar suas arestas. 
No fim, o papel não guarda respostas, 
Guarda apenas o rastro de quem ousou procurar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Vejo olhares

 Eu ando pelo mundo prestando atenção 
Em olhares que eu nem sei o nome. 
Há algo de ancestral nesse hábito, 
Como se o passado ainda respirasse 
No intervalo entre um piscar e outro. 
 
O olhar precede o nome: 
Ele chega antes de qualquer vocabulário, 
Antes da árvore genealógica, 
Antes das biografias que inventamos para caber. 
 
O nome é uma convenção tardia; 
Os olhos são o primeiro idioma. 
E nesse idioma, ninguém é exatamente quem diz ser. 
 
Vejo olhares que pedem absolvição, 
Olhares que tentam disfarçar a própria vertigem, 
Olhares que não suportam o peso da consciência 
E desviam antes de serem flagrados. 
 
Alguns olhares guardam perguntas 
Que ninguém ousou formular; 
Outros, respostas que jamais serão pronunciadas. 
 
Se o mundo tem um alfabeto secreto, 
Ele está nos olhos, 
Um léxico sem gramática, 
Movido por hesitações, por sustos, 
Por pequenas intenções que a boca não assume. 
 
E eu, que não sei o nome de ninguém, 
Coleciono esse idioma sem dicionário, 
Feito de ecos que não se repetem. 
 
Talvez seja por isso que os olhos cansam: 
Porque carregam tudo que escapa à linguagem, 
Tudo que não pode ser lembrado 
Sem antes nos ferir. 
 
No fim, olho por olhar, 
Sem esperar conclusão. 
Pois talvez o sentido não esteja no que se revela, 
Mas no fato de que algo insiste em olhar de volta. 
 
E então compreendo: 
Não sou eu quem observa, 
Sou observado pelo mundo, 
E o nome disso, se é que existe, 
Não cabe em nenhum nome. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Cegueira existencial

 Há quem possua um mundo inteiro, 
E ainda assim caminhe 
Como um mendigo da própria vida. 
 
Há quem tenha o sol dentro de casa, 
Mas prefira o frio das sombras que inventa. 
 
Alguns seguram a felicidade pelas bordas, 
Sem perceber que ela 
Escorre pelos dedos porque não a nomeiam. 
 
Viver como se nada tivesse 
É uma espécie de cegueira escolhida, 
Um modo elegante de desperdiçar milagres. 
 
Os que não enxergam o que têm 
Colecionam fantasmas, 
Sentem falta do que nunca perderam, 
Lamentam o que nunca procuraram. 
 
É triste, mas é humano: 
Há corações que só descobrem o valor do calor 
Quando já desaprenderam a acender fogo. 
 
E quando finalmente percebem o que tinham, 
Não é mais posse, é memória. 
E memória não abraça, 
Não consola, não devolve. 
Só pesa. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sempre em frente

Sempre em frente, dizem, 
Como se o tempo fosse um corredor estreito 
E nós, sombras com pressa, 
Procurando uma porta que não sabemos nomear. 
 
Não há tempo a perder, repetem, 
Como se o atraso fosse um crime 
E cada suspiro um débito não pago. 
Mas o relógio é um carcereiro paciente: 
Não grita, não empurra, apenas observa 
Enquanto nos diminuímos no próprio passo. 
 
O passado acena na última curva, 
Pedindo testemunhas para o que já não importa. 
É tentador olhar por cima do ombro, 
Mas quem devolve os olhos ao que morreu 
Entrega ao destino as mãos amarradas. 
 
O futuro, por sua vez, prefere o segredo. 
Mostra pistas, abre fendas, oferece um rumor. 
Sua promessa é um clarão distante 
Que não ilumina o chão, mas orienta o impulso. 
 
E seguimos, então, 
Não por coragem, mas por falta de alternativa, 
Pois a estagnação é mais cruel que o risco 
E o tempo não negocia com os hesitantes. 
 
Sempre em frente, mesmo quando dói, 
Mesmo quando o caminho se estreita 
E o pensamento tropeça na própria dúvida. 
Avançamos porque ficar seria admitir derrota, 
E porque o chão também se move sob os indecisos. 
 
O que chamamos de pressa 
É apenas a tentativa de acompanhar o inevitável. 
O que chamamos de destino 
É o nome que damos às escolhas que já fizemos 
Quando pensamos que ainda estávamos escolhendo. 
 
E o que chamamos de vida, 
Isso sim é urgente, 
Não porque acaba, 
Mas porque não espera. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Teimosia do coração

Mesmo distante é assim, 
A lembrança tem a manha de permanecer viva 
Como um incêndio que se recusa a virar cinza. 
 
Eu sei que não me esquece, 
Porque há nomes que fazem eco, 
Há gestos que grudam no corpo 
Como perfume em roupa de festa, 
Mesmo depois do sol e dos lavadouros da vida. 
 
A distância tenta explicar o que não entende: 
Certas presenças seguem em segredo, 
Sem contrato, sem testemunha, 
Apenas ocupando o pensamento 
Como se fosse casa. 
 
E, se te negas, eu sorrio: 
Quem já provou o gosto 
Não esquece o sabor, 
Mesmo que finja. 
Mesmo que cale. 
 
No fundo, você sabe: 
A memória é uma espécie de teimosia do coração. 
E o coração, quando aprende um nome, 
Não desaprende fácil. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 18 de janeiro de 2026

O poeta espera

 Em tudo o que se espera, há uma fome. 
E quem espera demais inventa mundos, 
Não para preenchê-los, 
Mas para não cair neles. 
 
A imaginação nunca pede licença: ela grita. 
Não fala para o ouvido, fala para os olhos. 
É por isso que alguns olhares sangram ideias. 
 
O poeta espera — mas o tempo não. 
E no atraso do mundo 
Surgem criaturas que só ele vê, 
Nascidas de um medo tímido 
E de uma coragem clandestina. 
 
Há limites que só existem 
Para quem não os encontra. 
O poeta encontra, 
E por isso volta ferido. 
Mas volta. 
 
Quando nada acontece, a mente inventa. 
Quando tudo acontece de uma vez, a mente ri. 
O poeta é o único que se assusta com os dois. 
 
O limite da imaginação é o corpo: 
Ela quer se estender 
Até onde o sangue não chega. 
O resto é vertigem. 
 
Quem espera demais aprende a ver no escuro. 
E ver no escuro é um tipo de destino. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 17 de janeiro de 2026

Discreto carrasco

 Não é o tempo que me assombra, 
Mas o vazio de quem o atravessa. 
A temporalidade do instante é clara, 
Transparente como um vidro frágil 
No qual a eternidade apenas encosta a testa. 
 
O que me fere é a mediocridade dos afetos, 
Os sentimentos mornos, 
Aquela indiferença que se veste de prudência 
Mas carrega o mesmo tédio dos mortos. 
 
Pois todos caminhamos para um destino comum, 
Um fim que não barganha 
Nem mede esforços 
Para nivelar todas as vaidades no mesmo chão. 
 
E, ainda assim, há quem viva como se não soubesse, 
Como se o tempo fosse um privilégio privado, 
Como se o coração pudesse 
Adiar a própria chama. 
 
Não temo a brevidade — ela é justa. 
Assusta-me o que não arde, 
Assusta-me o que não sente, 
Pois pouco importa o tamanho do relógio 
Se a alma permanece imóvel. 
 
Afinal, não há diferença entre o homem 
Que se atira ao seu destino 
E o que ali chega arrastado: 
A mesma porta se abre, 
A mesma poeira se recolhe, 
O mesmo silêncio testemunha. 
 
O tempo, este discreto carrasco, 
Não mata ninguém duas vezes. 
Quem o desperdiça, faz o serviço por ele. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense